
Ontem estive na praia.
Passeava a beira-mar, observava os banhistas nas suas actividades.
Do mar, apareceu uma enorme baleia, negra, com boca e bigodes de peixe, num potente salto, em direccao a costa.
Nao tive medo. A baleia caiu na areia e, de imediato, a multidao tentava ajuda-la a voltar para o mar, sem sucesso.
Outra baleia entao surgiu, outro salto. Na direccao errada, baleias, voltem para o mar!
A multidao logo parou os seus esforcos, ao deparar-se com o cenário de cerca de 15 baleias em voos para a areia.
Só eu conseguia ver as manchas negras a aproximarem-se e avisava os banhistas para se afastarem.
Quando o grupo de baleias se encontrou completo na costa é que me apercebi- aqueles eram os meus amigos, humanos de carne e osso, que tinham partido para outros cantos do mundo-a aventura, para estudar, para mudar de ares...,- vestidos de baleias.
Mas nao era bem um fato, era uma pele.
Eles eram baleias no mar e pessoas na terra-um pouco como a pequena-sereia.
Sabia onde os encontrar.
Deixei os banhistas e as carcacas de baleia na praia e fui ter a uma casa de madeira verde.
Lá estavam os meus amigos e soube mesmo bem...
Conversámos.
Perguntei-lhes o que faziam na praia e a El (que mora comigo) disse-me que se tinham perdido e decidiram parar por ali.
Perguntei-lhes porque tinham partido.
Um por um, deram-me as suas razoes.
Mas já estava na hora de regressarem ao mar.
Cada um deles depositou nas minhas maos pedacos de tecido, convites para as suas últimas aparicoes, datadas para muitos e nuitos anos por vir.
Cada um deles tinha uma data diferente.
Seriam as suas ultimas aparicoes em vida.
Voltámos a praia, ainda cheia de banhistas, mas dirigimo-nos para um lugar sossegado, perto das rochas.
E, de novo, um por um, despediram-se de mim, subiram a uma rocha e mergulharam para desaparecer como manchas negras no mar-eram baleias novamente.
A el ficou para último, nao gosta de despedidas.
Senti-me um pouco triste-e uma pontinha de inveja.